quinta-feira, 7 de outubro de 2010

gonçalves dias

escrevi essa canção do exílio para lembrar que nunca estive lá.

da diferença entre inundar e atropelar

é preciso ser mais organizada, contar o tempo nas horas certas e não como calendário indiposto. o rio de janeiro chuvoso subitamente se traveste: esquinas de melancolia assustada subindo pelos postes. (gosto da idéia do rio de janeiro ter um pau escondido sob os parangolés). cinza é o vento dessa quinta-feira sórdida. 'aviso que sou um canalha', ele disse. bem, eu sequer carrego moedas nos bolsos (e pior: ainda falo por metáforas, desculpe).

a chuva não se decide: se inunda ou se atropela a cidade. (ainda que um venha, necessariamente, seguido do outro, os modi operandi divergem). inundar é construir morada, demolir sigilos, navios de caos e sutilezas. atropelar é arrancar as chaves, trocar as fechaduras e desaparecer rumo à berlim.

da minha parte, sou feita de chuva e cinzas, meu bem. você, até agora, pareceu matéria-prima de inundações. (da janela, avisto: a chuva decidiu, por fim, inundar a cidade).

ei, você, com o candelabro, na cozinha: quem vai atropelar agora?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

- para você ver como se publica qualquer coisa: querem lançar meu livro de poemas.

- seria a deixa de dizer "eu gosto do teu livro, L." - se eu tivesse lido. ou entendesse alguma coisa de poesia. resigno-me ao parabéns descerebrado, pois.

- poesia não se entende: se esconde junto com a camisa do ramones no fundo do armário.

- lasquei-me. nunca tive camisa dos ramones. isso dobra a quantidade de poesia que posso guardar ou me torna um energúmeno?

- parabéns. você ganhou um vale-bônus da poesia com direito até a poema-construtivista-processo.

- dá pra abrir latas com isso?

- dizem que desentope pias.

- já é útil. tem delivery?

- ih, poema-processo é cheio de marra e não vai a lugar algum. metido a estrela.

- agora com primeiro livro no prelo, então...

- o primeiro livro se livrou dessa maldição. preferiu fazer umas rimas bobinhas.

- nem tento o tento. minhas estrofes são uma catástrofe.

- todas as minhas tentativas de rima são pobres e imorais. o jeito é aceitar. (aliás, o nome do livro é 'pessoas de quem roubei frases')

- gostei do título. até compraria, se visse por aí.

- eu te dou um e você já pode desentupir pias.

- faço questão de pagar. se der defeito, quero poder reclamar com a fabricante.

- a fabricante não se responsabiliza pelos danos ao contribuinte.

- no risco, sem rede. agora tá começando a ficar divertido.

- a casa só trabalha com apostas sem devolução. sentar na mesa tem que ser sem rede.

caixa postal

- óbvio que tem mais para falar: tem o meu mais novo caso de amor, esse que estou indo com as mãos amarradas atrás das costas e as pernas rijas, que é para não repetir a sinopse do nosso filme: eu, escabrunhada no meio fio de botafogo, chorando. O amor que nunca aconteceu. muita calma, muita técnica, muito lou reed na vitrola para lembrar das wild streets de nova york - vira-se uma esquina na voluntários e se cai em uma delas -, muita coleira que é para não adiantar o passo. tem também aquele filhinho, meu orgulho ressabiado, recebendo elogio de paris e eu querendo contar, mas na minha que é para não entornar o caldo. ando ressabiada em falar demais - porcas borboletas, lembra? - e escondendo minhas sílabas nos canos (até escondi uma palavra nova no buraco da telha da cozinha, uma delícia de palavra, depois te conto), e tem os convites, as rotas de fuga - sabia que foram os mesopotâmios os inventores do conceito de culpa? e eu achando que tinha sido o saudoso frei didi dos maristas, com o candelabro, na cozinha -, as vontades, os quereres. há todos os poemas que eu escrevi para você e que agora vão sair, impressos, numa folha azul, que é pra me lembrar que existe vida after you. tudo isso é para me lembrar que existe vida after you. me liga? me escreve? você nunca mais me ligou. não tá podendo, é isso?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

quando ele encostou a ponta da caneta no papel amassado, puxado às pressas da bolsa de ana, e rabiscou um verso qualquer (não era um verso qualquer, todos sabemos disso; era chet baker escorrendo pela tinta barata), teve vontade de dizer:

- medo de você segurar essas mãos esfoladas e desaparecer com medo do sangue que brota. raiz de planta morta que ainda assim insiste em escorrer pelo ralo, inutilizando todos os escoamentos da casa.

mas manteve-se quieta.

domingo, 3 de outubro de 2010

god bless you, lou reed

oh, please, saint germaine
i have come this way
do you remember the shape i was in
i had horns that bent
i'm so free
i'm so free.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

padaria

existe uma padaria aqui na glória, apelidada carinhosamente por moi de "a melhor padaria do rio de janeiro". obviamente, não é. mas é a única que abre religiosamente às quatro da manhã (sempre disponível nas noites de perdição & luxúria) e encerra às onze da noite (sempre atenta aos desejos & às carências). há um biscoito de farinha de trigo & manteiga & ovos, em particular, idêntico aos que a minha avó fazia. desses que metade do saco está queimada e a outra, crua. desses que se come assistindo à reprise de roque santeiro durante a aula de matemática. dona carmelita tentou me ensinar diversas coisas acerca da vida, dos homens, das frustrações e de tudo o mais que corre por debaixo do tapete, mas eu, rebelde, sequer dei ouvidos. não aprendi a rezar para encontrar amores perdidos, perdi a receita da suposta torta de bacalhau para dobrar chefes & sogras e jamais consegui enfiar a linha na agulha de costura.

dela, guardei todos os discos de caetano, de cely campelo e dos beatles. aprendi a andar no ônibus de graça (só praticável até certa idade, crianças), a fingir sapiência no francês e a pentear o cabelo para o lado esquerdo todas as vezes que a vida andasse errada (que é para o vento soprar do lado certo). vejam vocês, apenas as coisas erradas.