sexta-feira, 7 de maio de 2010

ainda com os pés no chão, sentir-se como quem vai embora. estou sempre indo embora. eu só sei ir embora. todas as ondas nessa casa caminham em uma só direção: a de não voltar ao ponto de partida.

para ninguém

era uma situação, vamos convir, com a ironia a molhar os lábios. intrigante poderia até servir, em uma conversa à base de cafés com os cotovelos encostados à parede, mas essa não era a situação; e não havia ninguém para ouvir. a verdade é essa: não havia ninguém para ouvir. até as paredes se retiraram.

ah, manuela, como se não soubesse que a vida tem dessas coisas: o desfazer de linhas irredutíveis (nada na vida é irredutível - note for later thought), os nós tão simples de demover das sandálias de prata. nada é tão terrível ao ponto de se construir um drama grego, nada é tão pleno ao ponto de se criar uma liberdade.

o que fazer? o que se fazer com tal informação?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

pensamento do dia

envelhecer significa apreender o desapego: de casa, de mãe, de banco, de janelas vazias, de tomadas que são focinhos (e espíritos) de porco e, pasmem, até de amores.

terça-feira, 4 de maio de 2010

aqui em santa teresa

encontrar a palavra certa é como, depois de muito procurar, descobrir o exato tom de verde (em acrílico) escondido atrás de tantas prateleiras dessas lojas de arte.


*


meu redemoinho de medidas, babe: amar em colheres de café, esquecer em colheres de chá, justamente quando os armários deveriam estar vazios e empoeirados.


*


papai, me empresta o carro? (tô precisando sumir por uns tempos.)


*

em santa teresa, dorme-se pouco, bebe-se muito, fala-se apenas em galhofas e sodomas, e o medo tem contornos triangulares.


*

meu amor, a beleza é tão insípida que você cruzou as nuvens, voltou repleto de unhas, garras e dentes, e eu sequer o vi passar.

o invisível

cada qual com suas obsessões:
a minha é desfiar instantes
janelas afora.

babe, do you remember
when we
met?

eu usava falsas alegrias como
vãos, réguas e
abridores de vinho tinto

a crueldade, então
reside em oferecer lilazes
quando não se há nem chão
- e exatamente qual a profundidade do seu
naufrágio?

domingo, 2 de maio de 2010

eu resido nos pequenos silêncios existentes entre a conversa do café e o telefonema do dia seguinte.

da paixão

as idéias partem desse porto onde ninguém sabe exatamente os horários de partida, de chegada e nem os nomes dos passageiros. não há uma lista de documentação necessária: embarca quem consegue convencer o tripulante que está apto a.

eduardo coutinho me ensinou a ver filmes. me ensinou a conhecer pessoas. me ensinou a prestar atenção no meu vizinho. me ensinou o que é ética.

e assistir a esse homem, que saiu de sua casa para falar a um bando de desocupados narcisistas, discorrer sobre a paixão de fazer cinema é algo inenarrável. pertence ao porto, aos marinheiros, às areias.

enquanto todo o mundo ruía, sob a prerrogativa vã de um debate sobre as imagens do povo, ele residia na pequenez: a minha utopia é estar vivo - o que é difícil pra cacete - e fazer filmes.