terça-feira, 8 de junho de 2010

por que ver parnassus

você pode me afirmar - com bastante pertinência, aliás -, que não vai pagar para ver mais um filme estranho e bizarro do terry gilliam, especialmente um filme em que o ator principal morreu no meio das filmagens. você pode me perguntar ainda (essa já sem tanta pertinência) qual a graça em assistir uma fábula se ela não está em 3d. e por último, você pode sorrir e simplesmente argumentar que o roteiro de parnassus não tem pé nem cabeça e tem mais buracos que a uruguaiana.

e eu respondo: honey-pie, nada disso importa.

n ão importa porque parnassus não quer fazer sentido - e que maravilha é quando gilliam aparece nas nossas vidas não querendo fazer sentido! existem diretores que dizem não querer fazer sentido - mas ficam profundamento irritados se você não os leva a sério. gilliam é mágica, é fábula - é toda a vida que você gostaria de ter e não tem. (tipo quando você tem treze anos e quer que seus pais morram).

não seria absolutamente incrível poder viver em um mundo comandado pela imaginação? sem contas a pagar, sem documentos a serem autenticados, sem frustrações - apenas escadas gigantescas rumando ao céu, pula-pula em forma de vitória-régia e nuvens lilazes. todos os seus mais loucos sonhos (lembra daquele em que havia um plástico-bolha gigantesco cor de rosa neón?) acessíveis do outro lado do espelho.

mas aí, você - novamente, bastante sagaz - completa: onde está a tragédia? gilliam é o homem dos finais absurdos! e eu te respondo: a tragédia, meu amigo, está em não poder viver a vida dentro do imaginarium.

(nunca gilliam foi tão cruel.)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

saudade cresce e se espalha no quintal, invade a sala, corrói os livros, mata o gato branco.

fica só o rastro das palavras carcomidas, manchando o puído chão da sala: saudade de dormir sem frio. e manuela se encolhe.

[ o avião em que ele a havia colocado, rumo a uma cidade cinza e nebulosa. recebeu na volta, de braços abertos, uma outra mulher. ]

domingo, 6 de junho de 2010

versinho rimado (e cafona)

te amar é quase uma questão existencial:
mas como dizem por aí,
eu não sei amar pela metade
não sonho sem balão
e não recuso beijos roubados
em uma tarde de verão.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

por outro lado

dava um braço para ter escrito:

dessa coisa que mete medo
pela sua grandeza
não sou o único culpado
disso eu tenho a certeza

frases boas de músicas nem tanto assim

eu levo a sério e você disfarça.

*

há sempre uma sombra em meu sorriso.

*

rir de tudo é desespero.

*

caberá só a mim esquecer - e eu vou sobreviver.

*

alguma coisa está fora da ordem.
uma rosa, sim, é feita do asfalto, mas também vem da lama e dos monstros e das facas afiadas que cerram a madrugada quando alguém bate à porta ou quando, no meio do beijo, toca o telefone. ontem à noite, aqui em casa, houve uma festa, uma festa muito bonita, com pessoas até bastante interessantes, que debaixo das estrelas tentavam parecer ainda mais interessantes, sabe do que estou falando? dos erres e dos efes, dos desamores analisados, das contas de luz e das empresas de petróleo, de quem lê o jornal e se acha absolutamente maravilhado com tudo - mas ei, você está VENDO a noite lá fora? vamos dar um passeio, venha, aperte a minha mão, que eu te levo para conhecer um recanto muy muy hermoso no leme, no início da praia, vamos de bicicleta, vamos no perder, venha, vamos nos perder nesse beijo tão de outrora, vamos nos perder na tarde que cai, pois que a vida inteira está organizada e cheia de notas fiscais, anda, a hora urge, e daqui de dentro eu só vejo uma nuvem que cresce e passa e invade, uma neblina tomando conta de tudo, um fog, um verdadeiro fog, trazendo o chá das cinco para todos que nos esperam - qual foi a sua desculpa mesmo, essa vez?
há um poema embaixo da escada. vai deixá-lo esperando?

*

sonhei que havia voltado para o apartamento de laranjeiras e ele se esparramava pelo chão.

*

por quê tomar estricnina? sua vida não está organizada pelos próximos quarenta anos?

*

é óbvio que clara tem medo: medo de pessoas que lêem o jornal todos os dias. e acreditam em todas as linhas.

*

solitude com gosto de blues, cara de blues, focinho de blues - mas na hora de provar era fumaça requentada.

*

sigo afirmando: é preciso cuidado, menina, muito cuidado com egoísmo travestido de proteção.

*

o passado nos espreita. em cartas antigas, fotos mal tiradas e pior, em convicções que não mudam.

*

veja, eu continuo a mesma menininha de cinco anos atrás, ela sorriu. ainda acredito em amores e gaivotas.

*

eu também, ana, não sei falar sem ser balbuciando delicadezas.