sexta-feira, 5 de março de 2010
catolicismo
a minha religião não permite usar guarda-chuva
- água boa corre
a minha religião não permite dormir frente à televisão
- o além ainda é precioso
a minha religião não permite sair de casa sem sonhos.
meu primeiro homem tinha olhos muito azuis
- doce avô
o segundo não foi tão importante assim
o terceiro não sabe dançar
- mas minha religião não permite esquecê-los no horizonte
- e marçal aquino me ensinou a amar
minha religião permite equilibrar pratos,
- antes isso que não ter amor algum
tecer nós, engarrafar ventos e lamber brisas
- porque até as paixões platônicas criam buracos nos telhados
e acima de tudo,
minha religião celebra o azul
- temos que celebrar o azul apesar das contas de iptu
e da taxa de incêndio duas vezes ao ano.
- água boa corre
a minha religião não permite dormir frente à televisão
- o além ainda é precioso
a minha religião não permite sair de casa sem sonhos.
meu primeiro homem tinha olhos muito azuis
- doce avô
o segundo não foi tão importante assim
o terceiro não sabe dançar
- mas minha religião não permite esquecê-los no horizonte
- e marçal aquino me ensinou a amar
minha religião permite equilibrar pratos,
- antes isso que não ter amor algum
tecer nós, engarrafar ventos e lamber brisas
- porque até as paixões platônicas criam buracos nos telhados
e acima de tudo,
minha religião celebra o azul
- temos que celebrar o azul apesar das contas de iptu
e da taxa de incêndio duas vezes ao ano.
terça-feira, 2 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
diálogos V
- o que moldou a minha geração: coleção vagalume, castelo rá-tim-bum, jurassik park, caverna do dragão, capitão planeta, laços de família, sessão da tarde, a viagem da amiguinha à disney. graças a deus não tivemos marcelo rubens paiva. mas tivemos harry potter prometendo um mundo fantástico a quem fosse especial. nenhum de nós era.
ainda sobre cicatrizes
- essa cicatriz foi de quando tentei me depilar em casa, sozinha, pela primeira vez. a lâmina da gilete estava solta e fez esse rasgo. passa a mão para você ver.
Ele levantou o indicador direito: parecia um rio seco de carne na pele.
- é fundo.
- fiquei com tanta vergonha de chamar minha mãe – ou talvez não houvesse ninguém em casa -, e sentei embaixo do chuveiro esperando o sangue terminar de correr.
[ em um outro lugar, anos mais tarde, manuela iria se encontrar esperando a água correr, em outro chuveiro, não um qualquer, mas outro. ventava muito por ali. ]
Ele passou a mão pelo corpo, à procura de um passado interessante à altura de uma primeira depilação banhada em sangue.
- não tenho a ponta do dedo médio.
Ela pensou em replicar com uma piada, mas pouco fez além de levantar a sobrancelha.
Foi um homem, três anos atrás. Se conheceram, se amaram, dividiram o azul: mantiveram as bocas em segredo. Tinham medo – de si e dos outros -, tinham raiva – a maré estava tão cheia naquele verão -, tinham vergonha.
As paredes brancas muito brancas atingiram tal nível de claustrofobia que já não dava mais contar estrelas. Se antes Henrique transformava água em mar, agora era rio seco.
Um amanhecer, Eduardo decidiu parar de fumar. Sem adesivo nem nenhuma ilusão polishop – jogou tudo fora. Também quis ficar saudável e matriculou os dois na aula de squash.
Macho não lembra data nem ganha flor, mas Henrique sabia da terça-feira, oito de novembro de mil novecentos e noventa e oito – a.k.a. o ano em que todo mundo se fodeu -, 18º, São Paulo, de acordo com o Jornal Hoje. Foda-se a aula de squash: ficou em casa, abriu a garrafa de uísque e ligou o computador. O porteiro avisou que “aquele seu amigo” estava aqui.
Porque TODO MUNDO sabe. Ninguém comenta na cara. Mas por trás todo mundo é macho. Tem que saber. Tem que ter cu. Tem que ter cara. Não. Não é obrigação. Não é satisfação.
Foi uma vez só: a raquete levou a unha, a ponta do dedo e a garrafa. Era vagabunda, pelo menos. Henrique não foi ao hospital: virou pó de desejo, pó de sonho, pó de nada e o nada invadiu e tomou tudo, até o rio tietê. Waterloo foi aqui.
Ela o abraçou, mas por isso ele não precisava. Compaixão barata (obviamente omitiu o barata). Para resolver o silêncio, disse que a bunda dela era maravilhosa. Ambos sabiam da mentira. Mas decidiram acreditar naquela noite, como um pacto de cicatrizes. Como aqueles casamentos de Las Vegas que só valem em Las Vegas.
Ele levantou o indicador direito: parecia um rio seco de carne na pele.
- é fundo.
- fiquei com tanta vergonha de chamar minha mãe – ou talvez não houvesse ninguém em casa -, e sentei embaixo do chuveiro esperando o sangue terminar de correr.
[ em um outro lugar, anos mais tarde, manuela iria se encontrar esperando a água correr, em outro chuveiro, não um qualquer, mas outro. ventava muito por ali. ]
Ele passou a mão pelo corpo, à procura de um passado interessante à altura de uma primeira depilação banhada em sangue.
- não tenho a ponta do dedo médio.
Ela pensou em replicar com uma piada, mas pouco fez além de levantar a sobrancelha.
Foi um homem, três anos atrás. Se conheceram, se amaram, dividiram o azul: mantiveram as bocas em segredo. Tinham medo – de si e dos outros -, tinham raiva – a maré estava tão cheia naquele verão -, tinham vergonha.
As paredes brancas muito brancas atingiram tal nível de claustrofobia que já não dava mais contar estrelas. Se antes Henrique transformava água em mar, agora era rio seco.
Um amanhecer, Eduardo decidiu parar de fumar. Sem adesivo nem nenhuma ilusão polishop – jogou tudo fora. Também quis ficar saudável e matriculou os dois na aula de squash.
Macho não lembra data nem ganha flor, mas Henrique sabia da terça-feira, oito de novembro de mil novecentos e noventa e oito – a.k.a. o ano em que todo mundo se fodeu -, 18º, São Paulo, de acordo com o Jornal Hoje. Foda-se a aula de squash: ficou em casa, abriu a garrafa de uísque e ligou o computador. O porteiro avisou que “aquele seu amigo” estava aqui.
Porque TODO MUNDO sabe. Ninguém comenta na cara. Mas por trás todo mundo é macho. Tem que saber. Tem que ter cu. Tem que ter cara. Não. Não é obrigação. Não é satisfação.
Foi uma vez só: a raquete levou a unha, a ponta do dedo e a garrafa. Era vagabunda, pelo menos. Henrique não foi ao hospital: virou pó de desejo, pó de sonho, pó de nada e o nada invadiu e tomou tudo, até o rio tietê. Waterloo foi aqui.
Ela o abraçou, mas por isso ele não precisava. Compaixão barata (obviamente omitiu o barata). Para resolver o silêncio, disse que a bunda dela era maravilhosa. Ambos sabiam da mentira. Mas decidiram acreditar naquela noite, como um pacto de cicatrizes. Como aqueles casamentos de Las Vegas que só valem em Las Vegas.
você.
invadiu a minha rua
pôs asas no meu telhado
como se fosse tudo
bem.
eu.
remendando sonhos
descobri haver no meu
baú
mais papéis seus
pintados de bocas cansadas
que papéis meus
escritos com as certezas em
azul.
daqui de cima vou soprando nuvens
para mesmo em vinte anos,
mesmo se nem saiba mais quem você é,
o nosso céu seja o mesmo
- ontem esqueci quem eu era
para me encontrar na sua voz.
invadiu a minha rua
pôs asas no meu telhado
como se fosse tudo
bem.
eu.
remendando sonhos
descobri haver no meu
baú
mais papéis seus
pintados de bocas cansadas
que papéis meus
escritos com as certezas em
azul.
daqui de cima vou soprando nuvens
para mesmo em vinte anos,
mesmo se nem saiba mais quem você é,
o nosso céu seja o mesmo
- ontem esqueci quem eu era
para me encontrar na sua voz.
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