domingo, 10 de fevereiro de 2013

o segredo do mar aberto você
detém e conhece
todos os pássaros que vale a pena
conhecer

a oeste na direção do sol
preferimos as ondas

frágeis

enquanto lá fora os cães bailam
a melodia você
descobriu como parar de
chover

ainda é fevereiro

e as estrelas brilham convidativas
no golfo do méxico

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

escute lá
isto não é um filme
ainda que estejamos segurando facas
ou que hoje tenhamos ido comprar nossos
novos nomes
escute lá
as crianças que vêm vindo são
todas nossos amigos, vestidos
de vermelho ou de azul-carmim
(repito: cuidado, isto não é um filme)
e ainda que passeemos com o cão
a tarde vem e nos leva a
fumaça, a fortuna e a caixa de remédios
: da grávida que atravessa a rua,
jogamos um copo d'água [ era vidro
e dissemos: agora, falta apenas
assistir à água correr pelos azulejos do banheiro
poderíamos ter sorrido e dado as mãos, já que viemos
do mesmo substrato: das caixas de
sabão em pó
mas pela última vez, um aviso
não confunda
isto não é um filme
                [ não há ninguém lá fora.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

estar apaixonado é, em si
movimento pornográfico: observar uma pessoa
enquanto se aprende a voar
talvez a maior invenção dos homens tenha sido inventar que palavras carregam beleza. a palavra cão não morde, como já bem sabemos. de certa forma, diria, aprender o fato de ficar longe do fato de já estar meio que longe de tudo. encher as mãos de sal para construir a antuérpia: não te chama atenção estarmos sempre nos narrando? como não desconfiar de que tudo - a paisagem, o homem, o sentimento - é mera invenção narrativesca - e a quem pertenceria o comando desta narrativa?

a construção do poema como construção de uma, possível, vida. forma de vida. a poesia como via possível de salvação - não uma salvação ecumênica, mas salvação possível. há uma determinada hora em que tanta fragilidade cansa os calcanhares. posar de vítima, arrefecer, estremecer em azul & amarelo & vermelho. animal indefeso, esconder-se debaixo da sujeira das próprias unhas.

a literatura não dá conta dos fatos, mas da repercussão dos fatos sobre os indivíduos: como fazer palavra tornar-se vida e a vida, até então, relegada a segundo plano, ser além através da palavra? a palavra cão não morde, veja lá...

estou sobrevivendo. à chuva, à imundície (própria e dos outros) e às unhas azuis.

veja: veio o sol.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

cinza

acordei,
acenei ao mar bravio que se impôs sobre os para-choques
de são paulo

nada é seguro quando a palavra
vira gesto e
surge, resoluta
por debaixo da porta

mal sabem os escribas que dentro da minha pele
é só você contra o mundo

como cuidar dos elefantes?

recusando-me a estar sozinha. meu coração inquieto vagueia por esquinas e paradas quanto for possível. invento ilusões, picos de montanhas, posições de yoga e frenéticos acordes para a orquestra que nunca terei. leio, leio muito. ligo para os amigos mais incautos e ficamos a tomar chá e tecer nós durante toda a tarde. em suma, crio elefantes na sala: preencho os espaços em branco com o máximo de verbos que couber. sempre em busca do azul. a procura do azul move montanhas - ou, ao menos, pratos de porcelana barata.

pergunto-te: onde mora a sanidade? devemos incorrer erros em busca de verdade qualquer ou evitá-los a fim de compreender a eletricidade?

faço-me entender? devemos insistir em nossos desejos furiosos - rompantes de água - ou fluir pela catequese psicanalítica da verdade?

pergunto-te porque, sob todas as análises, estar ao lado de - ou insistir no erro, ergue-me a bandeira a orelha direita - seria a medicação mais indicada para as falhas de caráter existenciais. ou a pura e velha necessidade de amar & ser amada.

seguir a pavimentação ou pôr os pés na terra? em qual momento abater árvores não é tão somente repetir o discurso gasto? 

deveríamos afastar ou construir, mão & mão, o trampolim? até que ponto atravessar cidades, indo de uma paixão à outra, não se trata de correr em círculos no mesmo quarto? 

por fim:
estou sempre a esperar notícias do atlântico.   

beijos muitos & todos

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

cobogó

um baile

um acidente arquitetônico de suave jazz
no estalar da língua

co
    bo
        gó.

talvez uma vertigem
                   (mania de espelhos, 
                    nomeando-os guarda-sóis)

não há mar e o que resta de oceano
resvala pelos vãos de cimento

co
     bo
         gó.

os dezessete azulejos azuis na parede avisam:
basta o sopro.

como quando aprendi a voar:

seja firme
 - mas não tão forte -
ao mergulhar em sal e,
sobretudo,
não se deixe queimar

(sobre a mesa,
o coração.

não nos iludamos:

diante das certezas,
os saltos.

os galopes.