terça-feira, 23 de março de 2010
escuta: as pessoas hoje acordaram com sede de qualquer coisa maior do que isso aqui. se não as pessoas, pelo menos eu. o despertador me chamou para a vida às cinco e meia, quando o céu ainda definia sua paleta de cores do dia, entre o amarelo-voutomarnocu e o lilás-aindaacreditonoamor. qualquer recomendação aqui escrita não caberia em uma boa xícara de café preto, sabe. e eu ainda não descobri onde colocar aquele bibelô - mais um - dado por alguém de coração muito bom. anteontem, ouvi uma menina, uma garota, dizer que se sentia muito velha, mas não muito sábia. e nessa vida, quem sabe de alguma coisa concreta? existe o braço direito, os olhos cinzas e a vontade de dominar o mundo, geralmente esmagada pelo muito sono do dia inteiro. a verdade é que esse trânsito do rio de janeiro é muito, mas muito difícil.
segunda-feira, 22 de março de 2010
uma coisa que pensei enquanto você não vinha
- os seus telefonemas já foram mais doces, eu já fui menos babaca e sempre havia um pão com manteiga na geladeira.
o que o escritor fez? acendeu uma vela para são jorge - ele que nunca foi metido a falcatruas de fé -, pediu proteção (ou o que diabos essa gente pede quando tá cagada de medo), desligou o telefone, abriu as duas janelas. ouviu os tiros do morro dos prazeres.
caralho, é impossível escrever nessa cidade. [o rio de janeiro mais parece uma boca fumegante que sem dentes, caetano. reveja seus conceitos.] o escritor precisa entregar um roteiro pronto, amanhã, quinze páginas, sobre uma família perdida no sergipe - canindó de são francisco - para ir ao ar sexta à noite. adianta o quê?
(adianta a internet atrasada em dois meses)
o escritor tem raiva de todos esses filmes brasileiros sobre escritores: ele não é bonito, ele não consegue criar uma barba, ele não tem o pau grande, ele acha literatura russa bacana, mas seu forte é albert camus. vai ver foi por isso que o segundo livro não encontrou editora. deveria ter falado de tolstói.
(mas ele é: alcóolatra, fumante compulsivo, ex-morador da rua augusta, freqüentador de puteiro e morto de medo de virar a esquina e encontrar a primeira namorada)
batem na porta do apartamento do escritor. é a vizinha. linda. cabelos negros, uns olhos azuis cheios da porra da sinceridade, uns braços longos, uma esfinge. o escritor se comporta: o marido dela é seu amigo. 'tá a fim de um chope mais tarde, berê'? 'claro, claro. bate aqui e eu desço'.
a vizinha tem uma tatuagem na costela que de vez em quando aparece, especialmente nos dias em que faz faxina: um mundo em preto e branco com uma garota olhando, impávida. o escritor já sonhou em beijar aquelas costelas perfuradas de tinta, mas se controlou: não é nenhum rubem fonseca pra ir roubando mulher de amigo.
voltou ao roteiro. pois bem, mamãe: fique feliz, seu filho está na televisão. página nove, faltam apenas cinco. (quem vai ser o babaca a ler isso amanhã na emissora? pobre diabo).
[ lá vai bernardo, passa a primeira linha, a segunda, o ponta-direita da vergonha alheia tenta chutar-lhe a canela, não consegue, UHHHHHH, vem o trauma da infância desmoralizada, a primeira namorada que hoje se chama cláudia, tenta arrancar a bola da memória da punheta de cláudia cardinale, AAAAAAAAAAAH, mulher de sergipe, mulher de sergipe, mulher de sergipe, bernardo se aproxima do campo adversário, tenta pela esquerda - um ponto e vírgula -, tenta pela direita - mais uma locução - e, NA TRAVEEEEE ]
o telefone toca. só pode ser ela. a mulher do escritor. (ele não terminou a página nove).
- você disse que iria me ligar às nove.
- são nove e vinte, bernardo.
- e se eu tivesse saído? íamos nos desencontrar.
- em grande parte culpa da sua maldita obsessão em não ter um celular.
- estou na internet.
- a questão é: estou pronta. posso passar aí?
- pensei uma coisa enquanto você não vinha. posso dizer?
- pode.
- sam, esse é o início de uma bela amizade.
- a gente viu esse filme semana passada.
- eu sei.
- té amanhã, bê.
- té, bi.
o escritor desistiu: maquinou um verso aqui, outro ali, mas todos pareciam belos demais para a tevê. lembrou-se dos tempos em que não se permitia nem pensar em trabalhar para a tel-ah, que besteira, naquele tempo deixou de se permitir tanta coisa.
antes de dormir, ainda pensou em ligar para a bianca. considerou que fosse devaneios demais: desistiu.
o que o escritor fez? acendeu uma vela para são jorge - ele que nunca foi metido a falcatruas de fé -, pediu proteção (ou o que diabos essa gente pede quando tá cagada de medo), desligou o telefone, abriu as duas janelas. ouviu os tiros do morro dos prazeres.
caralho, é impossível escrever nessa cidade. [o rio de janeiro mais parece uma boca fumegante que sem dentes, caetano. reveja seus conceitos.] o escritor precisa entregar um roteiro pronto, amanhã, quinze páginas, sobre uma família perdida no sergipe - canindó de são francisco - para ir ao ar sexta à noite. adianta o quê?
(adianta a internet atrasada em dois meses)
o escritor tem raiva de todos esses filmes brasileiros sobre escritores: ele não é bonito, ele não consegue criar uma barba, ele não tem o pau grande, ele acha literatura russa bacana, mas seu forte é albert camus. vai ver foi por isso que o segundo livro não encontrou editora. deveria ter falado de tolstói.
(mas ele é: alcóolatra, fumante compulsivo, ex-morador da rua augusta, freqüentador de puteiro e morto de medo de virar a esquina e encontrar a primeira namorada)
batem na porta do apartamento do escritor. é a vizinha. linda. cabelos negros, uns olhos azuis cheios da porra da sinceridade, uns braços longos, uma esfinge. o escritor se comporta: o marido dela é seu amigo. 'tá a fim de um chope mais tarde, berê'? 'claro, claro. bate aqui e eu desço'.
a vizinha tem uma tatuagem na costela que de vez em quando aparece, especialmente nos dias em que faz faxina: um mundo em preto e branco com uma garota olhando, impávida. o escritor já sonhou em beijar aquelas costelas perfuradas de tinta, mas se controlou: não é nenhum rubem fonseca pra ir roubando mulher de amigo.
voltou ao roteiro. pois bem, mamãe: fique feliz, seu filho está na televisão. página nove, faltam apenas cinco. (quem vai ser o babaca a ler isso amanhã na emissora? pobre diabo).
[ lá vai bernardo, passa a primeira linha, a segunda, o ponta-direita da vergonha alheia tenta chutar-lhe a canela, não consegue, UHHHHHH, vem o trauma da infância desmoralizada, a primeira namorada que hoje se chama cláudia, tenta arrancar a bola da memória da punheta de cláudia cardinale, AAAAAAAAAAAH, mulher de sergipe, mulher de sergipe, mulher de sergipe, bernardo se aproxima do campo adversário, tenta pela esquerda - um ponto e vírgula -, tenta pela direita - mais uma locução - e, NA TRAVEEEEE ]
o telefone toca. só pode ser ela. a mulher do escritor. (ele não terminou a página nove).
- você disse que iria me ligar às nove.
- são nove e vinte, bernardo.
- e se eu tivesse saído? íamos nos desencontrar.
- em grande parte culpa da sua maldita obsessão em não ter um celular.
- estou na internet.
- a questão é: estou pronta. posso passar aí?
- pensei uma coisa enquanto você não vinha. posso dizer?
- pode.
- sam, esse é o início de uma bela amizade.
- a gente viu esse filme semana passada.
- eu sei.
- té amanhã, bê.
- té, bi.
o escritor desistiu: maquinou um verso aqui, outro ali, mas todos pareciam belos demais para a tevê. lembrou-se dos tempos em que não se permitia nem pensar em trabalhar para a tel-ah, que besteira, naquele tempo deixou de se permitir tanta coisa.
antes de dormir, ainda pensou em ligar para a bianca. considerou que fosse devaneios demais: desistiu.
recomendação no. 4
sempre que lhe oferecerem olhos azuis, não esqueça de pôr as mãos nos bolsos, abaixar a cabeça e sorrir - de canto de boca, veja bem, para não despertar a inveja alheia -, e felicitar toda a tristeza contida nos seus grandes olhos cinzas. [ antes uma janela de desesperança que ilusões tingidas de céu ].
domingo, 21 de março de 2010
recomendação n.º 3
o ministério da saúde adverte: deixar levar-se pelo além não é construir um horizonte, mas afogar-se nele.
quarta-feira, 17 de março de 2010
hoje tive vontade de morrer várias vezes - de tédio, de vergonha, de cansaço, de desesperança e, sobretudo, ainda, de amor. amor obstinado, desgraçado, mal pago e como em todas as histórias medíocres, impossível.
daí, tentei me matar assistindo a um velho querendo ensinar pela televisão o que é a realidade. o máximo que consegui foi um bocejo de sono e alguns rangeres de dente. às três da tarde, tentei me matar ligando para um velho conhecido de guerra, com um pouco de desamor e algumas frases forjadas em tinta bege.
mas qual.
ele pouco falou, e quando abriu a boca me informou a previsão do tempo.
a terceira - e última, vamos ter alguma piedade nesta terra - tentativa foi cobrir-me com a falácia: abri os braços e me joguei na lama das super expectativas. tamanha vergonha não perdoaria tão ínfima alma.
não vou dizer 'não doeu', veja bem. mas vou te falar uma coisa sobre a dor: ela engessa.
mas espere.
morrer, morrer, morrer, desagüar no nada, eu só alcancei naquele sinal do jardim botânico. você estava parado, meus braços te absorveram - em certa medida, te absolveram, mas para tudo há um limite, inclusive para a cafonice -, você me beijou e o sinal abriu.
a coragem, já pouca, se foi com a água da chuva; a saudade, já muita, enterrou-se em mim. caí na primeira esquina. perda fulminante.
daí, tentei me matar assistindo a um velho querendo ensinar pela televisão o que é a realidade. o máximo que consegui foi um bocejo de sono e alguns rangeres de dente. às três da tarde, tentei me matar ligando para um velho conhecido de guerra, com um pouco de desamor e algumas frases forjadas em tinta bege.
mas qual.
ele pouco falou, e quando abriu a boca me informou a previsão do tempo.
a terceira - e última, vamos ter alguma piedade nesta terra - tentativa foi cobrir-me com a falácia: abri os braços e me joguei na lama das super expectativas. tamanha vergonha não perdoaria tão ínfima alma.
não vou dizer 'não doeu', veja bem. mas vou te falar uma coisa sobre a dor: ela engessa.
mas espere.
morrer, morrer, morrer, desagüar no nada, eu só alcancei naquele sinal do jardim botânico. você estava parado, meus braços te absorveram - em certa medida, te absolveram, mas para tudo há um limite, inclusive para a cafonice -, você me beijou e o sinal abriu.
a coragem, já pouca, se foi com a água da chuva; a saudade, já muita, enterrou-se em mim. caí na primeira esquina. perda fulminante.
sábado, 13 de março de 2010
recomendação nº 1
trabalhamos apenas com amores impossíveis, pensou a escritora quando ele bateu a porta do táxi. tinha o olhar de quem pedia desculpas. (uma moça bonita atravessou a rua, enquanto isso).
regina quis um café, uma passagem para paris e grandes olhos azuis (a tristeza não parece tão simplória quando se tem olhos azuis), mas ficou com a chave de casa, um caderno e uma caneta. a escritora quis chorar mas se conteve.
aquela casa estava grande demais, espalhafatosa demais e escura demais. cogumelos de bolor cresceram pelas paredes, teias de aranha invadiram os livros e, sinceramente, aquele copo com vodka estava sobre aquela mesa há pelo menos dez dias.
(das piores sensações quando se está sozinha: luz que falta no sábado à noite, porta que abre com o vento, cartas para ninguém ler)
o telefone de regina tocou uma, duas, quatro vezes. ainda que não tivesse atendido, o vermelho continuou preso à garganta. henry miller já dizia, sabiamente, que quando não houvesse mais o que fazer, paris era o lugar certo. miller viveu, bebeu, amou e morreu em paris. [ também perdeu muito dinheiro ]. a escritora só quis dormir.
mas assim ficou: acendeu duas velas, pôs john coltrane para tocar, lavou os copos e trocou o saudoso henry por um outro qualquer. dentre as mais terríveis coisas que se pode dizer ao olhar um homem, não preciso mais de você poderia estar no topo.
poderia.
regina quis um café, uma passagem para paris e grandes olhos azuis (a tristeza não parece tão simplória quando se tem olhos azuis), mas ficou com a chave de casa, um caderno e uma caneta. a escritora quis chorar mas se conteve.
aquela casa estava grande demais, espalhafatosa demais e escura demais. cogumelos de bolor cresceram pelas paredes, teias de aranha invadiram os livros e, sinceramente, aquele copo com vodka estava sobre aquela mesa há pelo menos dez dias.
(das piores sensações quando se está sozinha: luz que falta no sábado à noite, porta que abre com o vento, cartas para ninguém ler)
o telefone de regina tocou uma, duas, quatro vezes. ainda que não tivesse atendido, o vermelho continuou preso à garganta. henry miller já dizia, sabiamente, que quando não houvesse mais o que fazer, paris era o lugar certo. miller viveu, bebeu, amou e morreu em paris. [ também perdeu muito dinheiro ]. a escritora só quis dormir.
mas assim ficou: acendeu duas velas, pôs john coltrane para tocar, lavou os copos e trocou o saudoso henry por um outro qualquer. dentre as mais terríveis coisas que se pode dizer ao olhar um homem, não preciso mais de você poderia estar no topo.
poderia.
sábado, 6 de março de 2010
eu poderia viver de escrever cartões de aniversário
- me recuso a negociar delicadezas (essa é roubada do mirisola)
- quem morre em estrelas desagüa no horizonte
- ontem aprendi a amanhecer pássaros
- você transforma água em mar.
- quem morre em estrelas desagüa no horizonte
- ontem aprendi a amanhecer pássaros
- você transforma água em mar.
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